O calendário anual fez o futebol brasileiro declinar. E pode fazer o futebol brasileiro se reerguer

Se as pessoas me perguntassem sobre um único problema que tem destruído o futebol brasileiro eu não falaria sobre a corrupção, sobre os dirigentes, sobre a Lei Pelé ou sobre qualquer outra coisa. Mas, acompanhando o futebol, eu diria categoricamente que o maior problema para o futebol do país é a ausência de um calendário minimamente razoável para os campeonatos nacionais brasileiros.

Eu mesmo já fiz uma proposta de calendário, em outro momento (1). Quando o fiz, não tratei o mesmo como uma verdade absoluta, dogmática, mas como o ponto de partida para uma discussão mais ampla. Desde então, muitas pessoas e grupos jornalísticos tem montado propostas de calendários para campeonatos estaduais e nacionais (como já montavam antes, seria muita presunção achar que eu fui ponto de partida para alguma coisa)

Vamos recapitular: até 2002, o calendário brasileiro tinha uma subdivisão clara: seis meses de campeonato estadual (ou regional, em 2002) e seis meses de campeonato nacional. Era uma forma que contemplava com jogos pelo ano todo apenas os times que participavam das Séries A e B do Campeonato Brasileiro (vamos lembrar que a Série C era formada por um amontoado de clubes e que a maioria deles não jogava mais de 6 jogos).

Muitos times menores sabiam que seus departamentos de futebol profissional só funcionariam por seis meses, mas os campeonatos estaduais gozavam de outra reputação na época. O faturamento desses seis meses era suficiente, na maioria das vezes, para sustentar as categorias de base do clube o ano todo.

Com isso (e com a existência do passe, até o final da década de 90), os investimentos em categorias de base compensavam. Muitos jogadores eram revelados em categorias de base, participavam de torneios menores, jogavam o estadual e eram vendidos por um bom dinheiro para clubes maiores do Brasil ou do exterior, ajudando a fechar a conta de muitos clubes menores.

De 2003 para cá, com a adoção do campeonato de pontos corridos (e não vamos discutir aqui se é a fórmula correta ou não, essa é outra discussão) e a diminuição dos campeonatos estaduais, muitos clubes pequenos entraram em colapso, não conseguindo mais alimentar esse sistema baseado no investimento em categorias de base. Isso ocorria porque a maioria deles só tinha atividade garantida por três meses durante o ano, que foi o período destinado aos campeonatos estaduais. Além disso, as fórmulas esdrúxulas e o jogo político das federações estaduais fizeram os campeonatos perderem a maior parte de sua relevância.

Hoje, com a Série B do Brasileirão em pontos corridos e a Série C caminhando para isso, podemos dizer que 60 clubes tem sua atividade garantida o ano todo. Os clubes da Série D disputarão, em sua maioria, apenas oito jogos no torneio, até o final da primeira fase (quando classificam-se dois times de cada grupo, com cinco times cada, para a fase eliminatória). Muitos estados tentam preencher esse vazio com torneios tampão, como a Copa FPF (em São Paulo) e a Copa FGF (no Rio Grande do Sul). No entanto, esses torneios tem credibilidade quase nula, uma vez que não estão integrados ao campeonato nacional.

O calendário brasileiro, com 60 clubes jogando o ano inteiro, causa inúmeros transtornos:

1) A ascensão dos clubes comandados por empresários ou itinerantes: Em um cenário em que não há mais viabilidade econômica para o investimento nos clubes de futebol tradicionais de menor porte, surgem clubes artificiais, sem vínculo com o local em que foram criados, comandados por empresários interessados em marketing ou em venda de jogadores. E esses clubes ganham cada vez mais espaço, sem terem uma identidade. São dois tipos de clubes: os claramente empresariais, como Audax (Pão de Açúcar) e Red Bull Brasil, por exemplo, e os itinerantes, como o Grêmio Barueri que foi pra Presidente Prudente e voltou para ou o Ipatinga que foi para Betim.

2) Defasagem entre times grandes e médios/pequenos: além da óbvia desigualdade financeira, aumentada em muitas vezes nos últimos anos, a diferença entre times grandes e pequenos aumentou no que se refere à capacidade de competir. Sustentar um clube se tornou algo mais difícil, porque a atratividade dos campeonatos menores diminuiu muito. A maioria prefere um produto grande, pasteurizado, padronizado, que possa ser vendido no PFC. O Impedimento (que deveria ser referência para todos vocês, fez um texto esclarecedor sobre isso há algum tempo (2).

3) Os times pequenos montam um time por ano, sem continuidade: é uma rotina cruel. Os times montam um time do zero às vésperas do Campeonato Estadual, no limite de seu orçamento, o campeonato estadual dura três meses e o time é desmontado, pois não há condição de pagar os jogadores sem jogar pelo resto da temporada. Muitos desses times nem contam mais com divisões de base, para não gerar custos. E, com o “novo calendário”, com a Copa do Brasil durando de março a dezembro, geram situações bizarras, como a de times que precisam ser eliminados da Copa do Brasil na primeira fase por correrem o risco de ficar sem time pra disputar o restante da competição, por conta do fim dos estaduais.

Daí, no ano seguinte, monta-se outro time do zero, que dura apenas mais três meses. E o círculo vicioso continua.

4) Diminui a quantidade de bons jogadores revelados: poderíamos fazer, aqui, uma lista enorme com ótimos jogadores brasileiros revelados em clubes menores. Se analisarmos a seleção brasileira atual e a seleção brasileira de 20 anos atrás, veremos que o perfil dos jogadores é diferente. Enquanto hoje prevalecem os jogadores que atuam em grandes clubes desde as categorias de base, há 20 anos havia um certo equilíbrio entre os jogadores de grandes clubes e os jogadores que iniciavam suas carreiras em clubes menores.

Isso faz com que o Brasil revele menos talentos, no fim das contas. É óbvio que a 19ª colocação atual da seleção brasileira no Ranking da FIFA tem a ver mais com uma distorção do ranking do que com qualquer outra coisa (3), mas é notório que o Brasil vive uma de suas piores fases no que se refere à revelação de novos talentos, a ponto de não estar entre os principais favoritos para a maioria dos analistas, mesmo sendo o país-sede da Copa do Mundo de 2014.

A Solução

Já adianto que não vejo solução próxima para o problema, tendo em vista a estrutura atual de poder da CBF. Inclusive, há sinais claros de que o futuro da seleção brasileira após a Copa de 2014, independente do resultado, tende a ser sombrio, e a classificação para a Copa do Mundo de 2018 será sofrida.

Mas a solução óbvia é deixar de pensar apenas no clube dos 13 e criar um calendário que tenha algumas diretrizes:

1) Negociação coletiva dos direitos de transmissão: países em que os direitos de transmissão são negociados individualmente, como a Espanha, já estão repensando o modelo (4), pela ocorrência dos mesmos problemas que ocorrem aqui: os clubes menores ficam fadados à irrelevância ou extremamente endividados. Se o modelo de negociações individuais continuar no Brasil, a tendência é que ocorra o mesmo por aqui.

2) Mudança no calendário: é uma necessidade urgente a criação de um novo calendário para o futebol brasileiro, com alguns pressupostos:

a) atividade durante o ano inteiro para todos os clubes, e não apenas para os que disputarem as Séries A, B e C do Campeonato Brasileiro.

b) Campeonatos estaduais em etapas, com os clubes que disputam competições nacionais entrando apenas nas fases finais (como ocorre hoje, com os times que disputam a Libertadores e entram nas fases finais da Copa do Brasil).

c) Campeonatos necessariamente sequenciais, dentro de uma hierarquia de campeonatos, em que um campeonato menor necessariamente classifica para um campeonato maior.

3) Mudança na estrutura hierárquica da CBF e das Federações Estaduais: essa é a parte mais difícil. Porque a CBF e as Federações Estaduais são estruturas oligarquizadas, que se retroalimentam. Para se candidatar á presidência da CBF, por exemplo, você precisa do apoio de, no mínimo, oito federações estaduais (e cinco clubes da Série A). As contas da CBF são aprovadas pelas federações estaduais, que recebem dinheiro da CBF. São estruturas em que a falta de transparência impera, dando margem à todo tipo de corrupção e a dirigentes que se eternizam no poder enquanto fazem administrações medíocres.

Conclusão

No entanto, convém reafirmar o que foi dito inicialmente: se fosse para resolver apenas um dos problemas do futebol brasileiro, deveríamos nos concentrar na questão do calendário. Na criação de um calendário inclusivo, em que todos os clubes tivessem atividades o ano todo, podendo se sustentar e podendo sustentar suas categorias de base. Um calendário que tivesse coerência, com competições que sempre classificam para outras, para criar uma noção de que há um caminho seguro para se percorrer até o sucesso. E um calendário negociado coletivamente, para diminuir a enorme diferença entre os clubes maiores e os clubes pequenos, melhorando a competitividade e aumentando a atratividade dos campeonatos.

Referências:

(1)

http://leorossatto.wordpress.com/2012/04/18/uma-formula-para-os-campeonatos-nacionais-no-brasil/

(2)

http://impedimento.org/2013/02/25/por-que-morrem-os-clubes-pequenos/

(3)

http://leorossatto.wordpress.com/2013/01/23/brasil-em-18o-lugar-no-ranking-da-fifa-culpa-do-ranking/

(4)

http://trivela.uol.com.br/espanha/governo-espanhol-quer-o-comunismo-no-futebol-ou-quase-isso

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O trânsito, uma metáfora da vida

Existem coisas das quais reclamamos. Coisas das quais queremos fugir. Que nos deixam de mau humor e nos embrulham os estômago. Para boa parte das pessoas, o trânsito é uma delas.

Só que o trânsito nos ensina lições, que muitas vezes não paramos para aprender. Se o olhar contemplativo prevalecer sobre o mau humor cotidiano em algumas oportunidades, veremos que o trânsito é uma grande metáfora da vida, e podemos tirar muitas lições dele.

Existem dias em que o trânsito flui melhor  e dias em que o trânsito trava completamente. Com a vida também é assim. Podemos enxergar isso de forma positiva ou negativa, dependendo do nosso nível prévio de expectativa.

Existem horários de pico no trânsito, em que todos sabem que vão encontrar problemas. O que prova que ter um bom timing é essencial para evitar problemas na vida.

Existem pessoas que esperam horas para sair de onde estão para evitar congestionamentos. O que prova que a paciência é uma virtude.

Existem momentos na vida em que precisamos parar para que outras pessoas possam andar. Como ocorre nos semáforos.

Existem pessoas que fazem opções mais arriscadas na vida, assumindo maiores riscos para chegar mais rápido ao seu destino. Como os motociclistas no corredor.

Existem pessoas que pensam apenas nelas, não se importando em prejudicar os outros para obter benefícios. Como o sujeito que fecha os outros pra passar na frente porque “está com pressa”.

Existem pessoas que se irritam quando são ultrapassadas. Na vida também é assim. A inveja e o espírito competitivo nos impedem, muitas vezes, de ter alegria com sucesso alheio.

Existem vezes em que fatores externos nos fazem ficar paralisados por algum tempo. Como ocorre nos dias de rodízio.

Existem pessoas que ultrapassam os limites de velocidade e pessoas que não chegam nem à metade dele. Nós corremos atrás de nossos objetivos de uma forma diferente, em uma velocidade diferente.

Existem vias mais congestionadas e vias mais livres. As vias alternativas são conhecidas por poucas pessoas. Na vida também é assim: se tivermos mais conhecimento e soubermos usar esse conhecimento, evitamos os caminhos mais problemáticos.

Existem vezes em que pessoas em nosso caminho paralisam nossa vida por algum tempo. Como ocorre nos acidentes. E existem vezes em que o caminho está mais estreito e demoramos mais para passar. Mas, como em uma obra, sabemos que isso pode melhorar nossa vida no longo prazo.

Existem dias em que estamos mais preocupados. Dias em que estamos sorridentes. Dias em que estamos calmos e dias em que estamos irritados. O trânsito preocupa, alivia, acalma ou irrita, dependendo o dia.

A verdade é que, quando saímos de casa, temos o objetivo de chegar ao nosso destino, independente do que aconteça no trajeto. É o nosso objetivo no trânsito, e deve ser o nosso objetivo na vida.

Às vezes as coisas não dão certo. Às vezes nos acidentamos no caminho. Às vezes nos distraímos e paramos em algum lugar. Pode ser uma perda de tempo, mas também pode ser um aprendizado.

O trânsito é um caminho, como é a própria vida. Um caminho em que fazemos escolhas e podemos encontrar coisas boas e ruins. Essas escolhas determinam se chegaremos ao nosso destino antes ou depois do estipulado.

Existem pessoas que querem apenas chegar ao destino. E existem pessoas que fazem isso aproveitando a viagem. É assim no trânsito. É assim na vida. Quando contemplamos e aproveitamos o caminho de hoje, o caminho de amanhã se torna mais fácil. No fim, tudo não passa de um grande aprendizado.

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Algumas coisas aleatórias sobre o Universo com as quais você provavelmente não vai se importar

Podemos considerar que em, escala global, um ser humano adulto tem em média 1,70 metros de altura e 80 Kg de massa. Esses números são obviamente imprecisos, mas serão usados como parâmetro.

O universo conhecido tem cerca de 45 bilhões de anos luz, de acordo com a Teoria de expansão do Universo de Hubble.

Isso quer dizer que, se fosse possível medir o Universo em “homens enfileirados”, teríamos que enfileirar 250.431.100.744.785.882.352.941.176 (duzentos e cinquenta septilhões, quatrocentos e trinta e um sextilhões, cem quintilhões, setecentos e quarenta e quatro quatrilhões, setecentos e oitenta e cinco trilhões, oitocentos e oitenta e dois bilhões, trezentos e cinquenta e dois milhões, novecentos e quarenta e um mil, cento e setenta e seis) homens para contemplar  todo o comprimento do Universo observável.

O Universo conhecido tem, de acordo com as medidas que vem sendo realizadas pela sonda WMAP (Wilkinson Microwave Anisotropy Probe), da NASA, e pelo SDSS (Sloan Digital Sky Survey), uma absurda massa aproximada de 1.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000 (10 elevado a 54) Kgs. Isso quer dizer que, se existisse uma balança e em um lado dela estivesse o Universo, no outro estariam hipotéticos  12.500.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000 de homens (1,25 x 10 elevado a 52) para equilibrar o peso.

Só que dessa massa toda, apenas 4% é feito de matérias bariônica (comum). 24% é feito de “matéria escura”, que não interage com a matéria comum, e 72% é feito de “energia escura”, um negócio ainda mais misterioso que acelerou a expansão do Universo nos últimos 6 bilhões de anos.

Estima-se que o Universo tenha 13,8 bilhões de anos. A expectativa média de um ser humano é de 69,64 anos (2010). É como se o Universo fosse uma sequência contínua e aproximada de 198.161.975 (cento e noventa e oito milhões, cento e sessenta e um mil, novecentos e setenta e cinco) vidas humanas.

Estima-se que existam aproximadamente 170 bilhões de galáxias no Universo, e, dentro dessas galáxias, estima-se que existam um total de cerca de 9 sextilhões de estrelas. E podemos imaginar que boa parte dessas estrelas têm sistema planetários em torno delas.

Tudo isso já seria suficiente para nos considerarmos insignificantes. Mas o Universo observável pode ser apenas uma pequena parcela do Universo. e o nosso Universo pode ser apenas um entre muitos Universos, em uma dimensão impossível de imaginar.

Supondo que não exista vida em nenhum outro planeta do Universo e a humanidade tenha a missão de colonizar todo esse espaço, e supondo também que realmente não exista nenhuma possibilidade de viajarmos mais rápido que a luz, levaríamos, em um ritmo de viagem de 10% de c (velocidade da luz = 299.792.458 m/s), que parece bem apropriado se pensarmos que precisamos parar e colonizar os planetas antes de seguir viagem, cerca de 450 bilhões de anos para colonizar nosso Universo. O que daria cerca de 6.461.803.561 (seis bilhões, quatrocentos e sessenta e um milhões, oitocentos e três mil, quinhentos e sessenta e um) vidas humanas contínuas e aproximadas.

E, nesse processo, veríamos estrelas se extinguindo. Como o próprio sol, que deve durar “apenas” mais cinco bilhões de anos. Conheceríamos progressivamente o Universo, mas não de forma completa, porque ele continuaria se expandindo em ritmo superior ao da nossa viagem. Em 450 bilhões de anos, na curva atual de expansão, nosso Universo já teria mais de 5 trilhões de anos-luz de extensão.

Mas a própria curva de expansão pode mudar. O Universo pode parar de se expandir e começar a se contrair. O Universo pode colidir com outro Universo, em um cataclisma inimaginável. O Universo pode ser tragado por alguma força oculta, que ainda não conhecemos. Afinal, somos como uma ponta de iceberg sob águas turvas. Enxergamos muito pouco, temos apenas indícios sobre a maior parte das coisas. Olhar as dimensões do Universo e reconhecer essas limitações são um exercício de humildade diário.

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Maioridade do que e para quem?

O assassinato do jovem Victor Hugo Deppman(1), no último dia 10, por um menor de idade detido pela polícia poucos dias antes de completar 18 anos, suscitou uma discussão em todo o país sobre o tema da maioridade penal, com alguns fatos relevantes: as manifestações de amigos e familiares (3), o governador Geraldo Alckmin apresentando um projeto para aumentar a pena de menores infratores (4) e uma pesquisa do Datafolha dizendo que 93% dos paulistanos aprovam a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos (5).

Existem muitos argumentos a favor e contra a redução da maioridade penal. Se, por um lado, menores de 18 anos cometem crimes hediondos, por outro lado eles também são vítimas de crimes hediondos, como ocorreu com Piuí, jovem de 14 anos executado ao lado de um carro da polícia no Centro de São Paulo, no final de março (6).

Dito isto, precisamos tratar essa questão com a cautela que ela merece:

1) Impactos no sistema prisional

Partimos de dois pressupostos aqui. O primeiro deles é o de que o sistema prisional brasileiro, hoje, falha miseravelmente em sua missão de inserir novamente o preso e o egresso na sociedade. Cerca de 70% dos egressos das prisões voltam ao mundo do crime (7), em uma das taxas de reincidência mais altas do mundo, e isso só mostra como a prisão brasileira, em seu modelo atual, não adianta rigorosamente nada no combate à violência.

Além disso, hoje temos cerca de 510 mil detentos no sistema carcerário nacional, de acordo com o Infopen (8). No entanto, existia um déficit estimado de 198 mil pessoas nos presídios brasileiros no final de 2010 (9), e naquela época a população carcerária do país era de 445 mil pessoas (8). Ou seja: foram presas mais 65 mil pessoas em dois anos, sem uma ampliação expressiva do sistema carcerário, agravando a superlotação de um sistema que hoje atende o dobro de sua capacidade. isso ajuda a explicar os 70% de reincidência no crime.

Diminuir a maioridade penal aumentaria o inchaço e pioraria ainda mais as condições nessas unidades. Só na Fundação Casa (antiga Febem), são 9 mil adolescentes internados, em um cenário em que 75% das unidades estão superlotadas (10). Considerando os 70% de reincidência, formaria mais criminosos ainda, que aumentariam ainda mais os índices de violência na nossa sociedade. Está bem claro que a redução da maioridade penal só pode existir com uma profunda reformulação do sistema prisional brasileiro, que é algo que não dá sinais de que vá ocorrer nos próximos anos.

2) Por que só se discute a maioridade penal? Por que não se discutem os direitos e deveres do adolescente na sociedade como um todo?

A discussão sobre a maioridade penal, além de oportunista, é incompleta. O alvo da discussão é um só: o adolescente. Quando falamos do adolescente, não devemos nos prender à questão penal, mas a todos os aspectos que envolvem a vida do adolescente em nossa sociedade.

O adolescente tem sido tratado pela sociedade com enorme desleixo nos últimos anos. Além de estar enquadrado em um estatuto só, junto com as crianças, ele ainda tem uma série de legislações próprias e difusas em várias áreas, que variam do sexo à maioridade civil. Prova disso é que não há nem consenso se o sexo com menores de 14 anos é considerado pedofilia ou não (11).

Quando falamos de adolescentes, temos que abordar, juntamente com a questão penal, pelo menos três outras questões: a maioridade civil, a questão profissional e a questão sexual. Cabem algumas considerações aqui, lembrando que eu sou leigo em Direito e um especialista poderia dissertar sobre o assunto melhor do que eu:

- Se a maioridade penal diminuir para 16 anos, o primeiro movimento que deve surgir, logo depois, é a demanda do adolescente por poder dirigir aos 16 anos. Afinal, ele já pode ser responsabilizado por crimes de trânsito nessa idade. Não estou afirmando categoricamente que isso pode virar lei, mas vai passar a ser uma demanda social legítima. Nada mais justo que reivindicar o direito de dirigir para quem já pode ser preso e já pode votar. E, apesar dos jovens serem o grupo que menos se envolve em acidentes de trânsito, são o segundo grupo mais presente nos acidentes durante a madrugada, que são os mais letais (12).

- O voto aos 16 anos será obrigatório?

- A prostituição aos 16 anos deixará de ser caracterizada como corrupção de menores?

- Jovens de 16 anos poderão atuar em empresas de forma “sênior”, sem serem aprendizes? Jovens de 14 anos poderão voltar a atuar como aprendizes?

Um jovem de 16 anos já está preparado para ter direitos e deveres plenos, sendo encarado como adulto pela sociedade, mesmo sem completar seu ciclo de estudos?

E o que tudo isso quer dizer?

A questão da maioridade penal tem sido encarada de forma muito simplista. A verdade é que a sociedade, em geral, tem tratado de forma bastante hipócrita o adolescente, especialmente após o surgimento da Internet. Por que os adolescentes não são pensados de maneira separada na hora de formularmos políticas públicas? A sociedade ora trata eles como crianças, ora tenta tratá-los como adultos.

Colocar os adolescentes nesse limbo em várias esferas, inclusive na legislativa, só fará com que essas pessoas tenham cada vez mais problemas e menos orientação adequada em sua formação. Existem problemas sociais relacionados aos adolescentes de difícil resolução, que tem sido encarados de forma negligente pelos governos.

Ninguém soluciona o problema da gravidez na adolescência distribuindo preservativos em escolas e postos de saúde. É apenas algo paliativo. Para a sociedade, qual deve ser a relação do adolescente com o sexo? Ele deve mesmo ser apresentado ao sexo de maneira cada vez mais prematura, como vem ocorrendo? Porque é óbvio que hoje em dia basta uma pesquisa no Google para qualquer adolescente de 12 anos ter acesso a todo tipo de conteúdo pornográfico.

Ninguém soluciona o problema do trabalho infanto-juvenil apenas legislando. O trabalho infantil muitas vezes é uma imposição dos pais, que vivem sem recursos e são obrigados a utilizar os filhos para ajudar a compor a renda da família. Existem poucas iniciativas de educação financeira e empreendedorismo para adolescentes, por exemplo. A solução para o problema do trabalho infantil está intimamente ligada à solução das desigualdades sociais do país (e da pobreza como um todo).

Essas desigualdades também são causa determinante para o aumento da criminalidade, embora muitos questionem esse discurso dizendo que “é de esquerda”. Deixo desenhar: vivemos sim em uma sociedade capitalista, e, considerando que não há nenhum problema nisso, temos pessoas mais ricas e mais pobres. Só que todas as pessoas, ricas ou pobres, são educadas e inclinadas a consumir.

Os mais abastados conseguem satisfazer essa inclinação, os menos abastados não. E essa frustração decorrente da não satisfação desse desejo de consumir faz alguns jovens se matarem de trabalhar para “subir na vida”. Outros, porém, encontram meios ilícitos de conseguir satisfazer seu desejo de consumir. E, a partir do rompimento da barreira moral da lei, são capazes de qualquer coisa para satisfazer seus desejos. E não estou falando isso de alegra, existem estudos comprovando a variável renda como fomentadora de crimes, especialmente patrimoniais, por mais que isso pareça óbvio á primeira vista (13).

Então, antes de sair às ruas pedindo a redução da maioridade penal ou fazer manifestações nas redes sociais a respeito, convém compreender que a maioridade penal é apenas uma pequena parte do problema, e necessita de um plano abrangente capaz de conferir racionalidade a todos os aspectos da vida do adolescente no Brasil hoje, e não apenas ao penal.

E isso porque abordar apenas a questão penal, na verdade, é uma tentativa grosseira de tentar isolar (e, se possível, eliminar) da sociedade todos os elementos que incomodam a segurança individual daqueles que desfrutam da sociedade de forma cômoda, satisfazendo seus desejos de consumo. É só uma das inúmeras cessões das liberdades individuais em nome da “percepção de segurança”, que só servem para isolar e segregar mais a sociedade, retroalimentando todo esse ciclo de frustrações e de geração de violência.

Leia Também:

Cracolândia e o Encarceramento Consentido

http://leorossatto.wordpress.com/2012/01/16/cracolandia-e-o-encarceramento-consentido/

O medo

http://leorossatto.wordpress.com/2011/11/28/o-medo/

Liberdade ou Segurança?

http://leorossatto.wordpress.com/2012/06/04/liberdade-ou-seguranca/

Referências:

(1)

http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/04/estudante-e-morto-com-tiro-na-cabeca-durante-assalto-em-sp.html

(2)

http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/04/suspeito-de-matar-jovem-em-frente-de-predio-e-detido-diz-policia.html

(3)

http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/04/amigos-de-estudante-morto-pedem-paz-em-caminhada-em-sp.html

(4)

http://www.senado.gov.br/noticias/opiniaopublica/inc/senamidia/notSenamidia.asp?ud=20130416&datNoticia=20130416&codNoticia=824831&nomeOrgao=&nomeJornal=Valor+Econ%C3%B4mico&codOrgao=47&tipPagina=1

(5)

http://noticias.terra.com.br/brasil/cidades/datafolha-93-dos-paulistanos-apoiam-reducao-da-maioridade-penal,d1e95a09dc71e310VgnVCM3000009acceb0aRCRD.html

(6)

http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2013/03/imagens-flagram-dois-jovens-sendo-executados-perto-de-carro-da-pm.html

(7)

http://www.conjur.com.br/2011-set-06/70-presidiarios-voltam-mundo-crime-ganharem-liberdade

(8)

http://portal.mj.gov.br/main.asp?View=%7BD574E9CE-3C7D-437A-A5B6-22166AD2E896%7D&Team=&params=itemID=%7BC37B2AE9-4C68-4006-8B16-24D28407509C%7D;&UIPartUID=%7B2868BA3C-1C72-4347-BE11-A26F70F4CB26%7D

(9)

http://www.ipan.org.br/arquivos/artigos/D%C3%A9ficit%20prisional%20equivale%20a%20396%20novos%20pres%C3%ADdios.pdf

(10)

http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,numero-de-adolescentes-apreendidos-em-sp-aumenta-138-em-dez-anos,1020585,0.htm

(11)

http://www.conjur.com.br/2012-abr-23/sexo-consentido-menor-14-anos-nao-caracteriza-estupro-vulneravel

(12)

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/09/18/maioria-dos-acidentes-no-pais-ocorrem-com-motoristas-de-26-a-35-anos-aponta-pesquisa-de-seguradora.htm

(13)

http://www.anpec.org.br/encontro2010/inscricao/arquivos/000-fbef9c78e6937a2d0330eed8f9d5d241.pdf

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